Author: moniqueoliveira

O estado poético – journal entry

Depois de uma noite mal dormida, duas reuniões, uma disciplina de quatro horas, lembrar que não almocei, olhar o esmalte da unha lascado, o batom ainda na boca, talvez tenha escovado os dentes com vinho, o amigo que separou e mora em um flat e redescobriu a fantasia, o amigo que teve mais uma recaída, a minha própria fraqueza, a dor que esbarra na insegurança dos outros e todas essas coisas que não são amor. O estado poético de deito na não-relva, não sei a verdade e não sou feliz. O aluno que diz que foi viciado em crack. E vc lembra da universidade pública e das cotas e da beleza de tudo isso. E da luta política tão cansativa. E do resultado, pífio, que vem só no tempo histórico. E desse fluxo de pessoas que sabem amar e que, às vezes, isso te atravessa. Esse estado de (en)mavarilhosamento à-la-Guimarães Rosa. O belo é o umbral.  E vc sai e vê a pobreza. E dá essa vontade de morrer. E nada é tão belo assim. Vc lembra da antiga professora da USP que dizia pra não usar a classe trabalhadora como LSD. E isso tudo é tão cansativo. E também não é. Me sinto viva. E outras pessoas são luminosas. Voltei pra casa em estado de flight. Encontrei um amigo em um date de app no bar da esquina. Disse “desculpa atrapalhar o que talvez seja um date”. E a sutileza de olhares meso-constrangindos porque voilá. Dia bom. Esse estado poético sem rima, confuso, que não seria possível sem a luz-sombra de ustedes. Deito na cama. Alguém grita. Vai curintia! Dou uma gargalhada e penso que gostaria de estar bêbada-chapada. O amanhã? Um perspectivismo semiótico sem importância. Me vem à memória aquele emoji de olhos arregalados. Esse abaixo. Maybe.

Só que sorrindo.

Bar da Monica

Atravessar a comunidade

Pra chegar nessa décima maravilha

Em cima, o crack corre solto entre as galinhas

Tem lugar pra todo mundo

Pra drogado, puta, criança e até pra gringo

*

Lembro de ler um poema do Vladimir Maiakovski

Que dizia

“Em algum lugar, dizem que no Brasil, há um homem feliz”

Ele só esqueceu de acrescentar

Que esse lugar é Salvador, Bahia.

*

Tem o riso solto que te desmancha

O nó daquele que ama

Encantada com os seus problemas

A cidade cuja lágrima se materializa em poemas

O milagre?

Alguém te desejar o bem

A escolha profunda

Que não vem da troca

Mas de ser quem se é

E a coragem

De ofertar

O que não recebeu

E até o que se acha que não se tem

Igreja Nossa Senhora dos Pretos, 1705

A Bahia

Sem poesia cantada

Aqui a luz reluz em muitos

Não são necessárias palavras 

Se há um lugar feliz

Eu diria que é aqui.

Obrigada pela cura

Não sabia que havia busca

Mas encontrei.

Uma quinta

Um drink

Boa musica

E São Paulo.

Alguém disse

Sonhar não é proibido.

Terei uma opinião sobre isso no futuro?

Certamente não agora.

A IA simplesmente inferiu* que a referência sutil seria o panóptico?

* inferência probabilística, não lógica.

Escritos íntimos de poetas ocultos (parte 2)

os poetas

e ativistas

do

oculto

também

se escondem

na noite.

se o diabo

veste farda,

os anjos

às vezes são

invisíveis.

mas nem tanto

Post-scriptum-larger-than-the-poem

O escritos anônimos de rua e de porta de banheiro sempre me fascinaram. Esse público-privado sem autoria. Um grito-silêncio que invade o cotidiano.

Mais uma das mil coisas que desejo estudar e escrever…. Invejo os antropólogos que estudam essas “sujas” obras-primas.

A dor é crua. Sem cozimento neurótico. Against method.

Double standards.