Depois de uma noite mal dormida, duas reuniões, uma disciplina de quatro horas, lembrar que não almocei, olhar o esmalte da unha lascado, o batom ainda na boca, talvez tenha escovado os dentes com vinho, o amigo que separou e mora em um flat e redescobriu a fantasia, o amigo que teve mais uma recaída, a minha própria fraqueza, a dor que esbarra na insegurança dos outros e todas essas coisas que não são amor. O estado poético de deito na não-relva, não sei a verdade e não sou feliz. O aluno que diz que foi viciado em crack. E vc lembra da universidade pública e das cotas e da beleza de tudo isso. E da luta política tão cansativa. E do resultado, pífio, que vem só no tempo histórico. E desse fluxo de pessoas que sabem amar e que, às vezes, isso te atravessa. Esse estado de (en)mavarilhosamento à-la-Guimarães Rosa. O belo é o umbral.  E vc sai e vê a pobreza. E dá essa vontade de morrer. E nada é tão belo assim. Vc lembra da antiga professora da USP que dizia pra não usar a classe trabalhadora como LSD. E isso tudo é tão cansativo. E também não é. Me sinto viva. E outras pessoas são luminosas. Voltei pra casa em estado de flight. Encontrei um amigo em um date de app no bar da esquina. Disse “desculpa atrapalhar o que talvez seja um date”. E a sutileza de olhares meso-constrangindos porque voilá. Dia bom. Esse estado poético sem rima, confuso, que não seria possível sem a luz-sombra de ustedes. Deito na cama. Alguém grita. Vai curintia! Dou uma gargalhada e penso que gostaria de estar bêbada-chapada. O amanhã? Um perspectivismo semiótico sem importância. Me vem à memória aquele emoji de olhos arregalados. Esse abaixo. Maybe.

Só que sorrindo.